“E
se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos
fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia,
ainda assim ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade
tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das
formas e dos planos das superfícies e dos contornos, supondo , claro está, que
a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a
escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da
luz, que os chamamos cegueira era algo que se limitava a cobria a aparência das
coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário,
ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que
devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias corisas e
seres, tornando-os , por essa maneira, duplamente invisíveis”. (Ensaio sobre a
cegueira. José Saramago).
Vende-se flores mortas Choro e gritos, em noites sem velha, nem velharia. Daqueles, que cavaram seus próprios túmulos, Tão fundo, quanto a alma daquele que cavou. Foi um só grito, Que será encaixado numa caixa de madeira, Amarrada em arrame farpado E cravadas em prego enferrujados. Faltará coveiro, Carregadores de caixões serão dispensados. Na caixa postal haverá vozes Que jamais serão escutadas. Incrédula, não conseguiu mais levar ninguém, Destruídas almas avisadas Corpos empilhados nas esquinas Chefiadas em vida Toda flor carrega o estigma da morte, Quer seja da arrogância, quer seja despedida. A vala aberta sorriu sem máscara, À espera do último aconchego. De volta as partículas da existência. Que não foram cheiradas em vida Toda flor carrega o estigma da morte Quer seja da arrogância Quer seja despedida. Sobreviver é torna-se habite De corpos que não quero que me pertença. Flores com pétalas melancólicas ...
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